terça-feira, 8 de outubro de 2024
domingo, 18 de agosto de 2024
Matas Ciliares: A proteção aos rios
Mata ciliar
As matas ciliares são áreas de vegetação que estão no entorno dos rios, lagoas, represas, nascentes, entre outros corpos hídricos. O nome para esse tipo de cobertura vegetal é dado devido à função que estas áreas desempenham, que é de proteção aos corpos hídricos. Assim como os cílios funcionam como proteção para nossos olhos, as matas ciliares funcionam como um filtro para entrada de sedimentos e poluição nos rios.
O Código Florestal de 2012 considerou as áreas de matas ciliares como Área de Preservação Permanente (APP). A partir dessa legislação, classificaram-se as matas ciliares como imunes ao corte. Dessa forma, houve uma maior proteção a vegetação, diminuindo assim os impactos nos recursos hídricos. Além disso, as matas ciliares passaram a ter uma maior atenção por meio do setor público. Portanto, houve um aumento de ações de recuperação das áreas degradadas que estavam as matas ciliares, principalmente em áreas de maior interesse público.
O Código Florestal estabeleceu os limites das áreas de APP ao entorno dos rios, conforme a largura do corpo d’água. Assim, cursos d’água com menos de 10 metros de largura devem ter pelo menos 30 metros de vegetação. Rios com largura de 10 a 50 metros devem ter uma faixa de vegetação de 50 metros. Já, os rios com largura de 50 a 200 metros, com pelo menos 100 metros de área ciliar. Rios com largura 200 a 600 metros, mata ciliar com pelo menos 200 metros. E rios com largura superior a 600 metros, as áreas ciliares devem ter 500 metros. Além disso, a legislação também estabeleceu limites das faixas de vegetação ao entorno de reservatórios artificiais.
Papel das Matas Ciliares
Como já mencionado, as matas ciliares funcionam como barreiras para a sedimentação dos rios, porém essas áreas também são fundamentais para os animais, as plantas e para a biodiversidade. Normalmente, os animais utilizam essas áreas como passagem, devido à proximidade com as fontes hídricas, que servem a água para a fauna. Além disso, existem espécies de plantas que necessitam de uma maior disponibilidade hídrica para crescerem e desenvolveram. Assim também, as áreas ciliares desempenham serviços ecossistêmicos importantes, como a apreciação, abastecimento, e estruturação dos solos, evitando enchente.
As matas ciliares auxiliam na filtragem e drenagem pluvial da água para os lençóis freáticos, e os aquíferos. Dessa forma, essas áreas verdes contribuem na manutenção e recarga dos rios, bem como de corpos d´água próximos. Além disso, as raízes das plantas que estão próximas aos rios estruturam os solos, impedindo a ocorrência de eventos erosivos, bem como, as inundações, enchentes, e deslocamento de terra. E por fim, as matas ciliares aumentam a qualidade e na quantidade das águas, o que impactam diretamente a sociedade atual e futura.
Assoreamento dos rios
A sociedade depende diretamente dos corpos hídricos para a sua sobrevivência. No entanto, como relatado, negligenciou-se a conservação e proteção dos rios. O assoreamento é um bom exemplo para ilustrar isso. Esse fenômeno acontece de forma natural, mas pode-se intensificar pela ação humana. A intensificação desse processo tem consequências destrutivas para o homem, uma vez que os corpos hídricos são responsáveis pelo abastecimento humano, dos animais, além de auxiliar na irrigação das plantações.
O assoreamento ocorre pelo escoamento de sedimentos trazidos pela chuva, em que se transporta a camada superficial do solo até os rios, esta depositada no fundo. Dessa forma, quando os rios não possuem em suas margens a vegetação, os sedimentos chegam no rio, em uma maior quantidade, e em maior velocidade, pois nesse caso não há barreiras para impedir os sedimentos. Além de sedimentos do solo, pode-se carregar lixo e esgoto para o rio, causando sérios riscos para o homem, animais e plantas.
O material que chega nos rios é levado e depositado em partes mais planas dos rios. Muitas vezes, formam-se grandes bancos de areia que prejudica a navegabilidade dos rios e o escoamento fluvial. Além disso, o material sedimentado pode ser tóxico, causando desiquilíbrio ambiental, em virtude dos peixes e outros animais que vivem nos rios. Cabe ressaltar, que a sedimentação dos rios, podem provocar o desvio e acúmulo de água em determinados pontos, causando enchentes e deslizamentos de terra.
Desmatamento de áreas ciliares
O desmatamento em matas ciliares vem intensificando na proporção que as atividades antrópicas crescem próximas aos cursos d’água. Apesar de serem classificadas com áreas de preservação permanente, existem diversas ações ilegais em áreas de matas ciliares. Muitas situações poderiam ser evitadas com a fiscalização adequada, no entanto, o pessoal responsável não é suficiente para banir essas situações. As áreas de matas ciliares percorrem muitos quilômetros e estão vulneráveis ao desmatamento.
As causas para o desmatamento em matas ciliares são inúmeras, e ocorrem principalmente devido à proximidade com os rios. As principais causas são a agricultura e a pecuária. No caso da agricultura, muitas culturas agrícolas exigem uma irrigação periodicamente. Assim, muitas vezes, desmatam-se as matas ciliares para a instalação dos plantios. Além disso, existem algumas instalações de pastagem nessas áreas, em decorrência da proximidade com os rios para o gado, o que causa perda da biodiversidade local. Outros fatores também têm causado o desmatamento das áreas ciliares, como o plantio de espécies florestais, a construção de casas e edifícios, entre outros. No entanto, é importante deixar claro, que essas atividades em áreas ciliares são ilegais, e fere o código florestal.
Inventário Florestal nas Matas ciliares
Como já mostrado ao longo do texto, as matas ciliares são imprescritíveis para o homem e o meio ambiente. A conservação e preservação dessas áreas são passos fundamentais, para uma sociedade equilibrada e possível. Porém, o conhecimento dos recursos disponíveis nessas áreas é importante para gerar uma conscientização e legislação cada vez mais justa para as matas ciliares. Para isso, realizam-se os inventários florestais para conhecer o estoque presente e realizar estimativas do potencial dessas florestas.
Nesse contexto, realiza-se o inventário florestal em matas ciliares de forma diferente dos inventários em outras áreas. As matas ciliares, em muitos casos, são faixas contínuas e estreitas, por isso a alocação das parcelas deve respeitar as dimensões das matas. Ademais, deve-se coletar as medidas de critério de inclusão do diâmetro à altura do peito (DAP), dimensões da parcela, e outras variáveis dendrométricas observando o tipo de vegetação amostrada. Cabe ressaltar, que em certos locais são de difícil acesso, e estão em áreas de conflito, por isso, antes da realização do inventário florestal, deve-se realizar um planejamento preciso.
Ações para diminuir o impacto nas Matas Ciliares
Diante da importância das matas ciliares, deve-se realizar diversas medidas para auxiliar na preservação das nossas matas. No entanto, é salutar ressaltar que as ações devem ser feitas de forma conjunta e bem projetada entre as diferentes entidades da sociedade. Em outras palavras, os órgãos públicos, ONGs e universidades devem implementar ações preventivas em conjunto para conseguirmos alcançar um ambiente mais equilibrado.
A principal medida é conscientização da população sobre a importância das matas ciliares para os rios, e diretamente para a sociedade. Nesse sentido, a população deve compreender o valor da água, e principalmente a importância da qualidade e da quantidade da água para o ser humano. Essa conscientização deve ser realizada por meio da educação ambiental em escolas, universidades, associações, praças, órgãos privados e públicos, para se alcançar um maior público possível.
Uma ação fundamental é a recuperação das áreas degradadas em matas ciliares. Assim, deve-se realizar essa ação de forma técnica, respeitando a distância do rio, escolhendo as espécies adequadas, e o espaçamento das plantas. Por exemplo, nada adiantará plantar mudas que não estão adaptadas as condições dos locais que forem plantadas. Outras questões importantes são a quantidade de mudas e sementes, e a qualidade das espécies escolhidas. Dessa forma, deve-se planejar adequadamente os requisitos técnicos para o enriquecimento de uma mata ciliar ou a sua total recuperação.
Além das ações já citadas, medidas que podem proteger os rios e as matas ciliares, são o cercamento das matas ciliares em áreas próximas à pecuária, que impedirá que o gado alcance o rio, e cause compactação do solo. Ademais, a conservação dos solos das áreas próximas, como exemplo evitar queimadas, promover plantios em curvas de nível, plantios em consórcios, entre outras ações que promovem a conservação dos solos. Atrelado a isso, uma medida fundamental é a fiscalização por meio de órgãos públicos, para evitar ações ilegais de desmatamento nas matas ciliares.
Conclusão
Nesse contexto, as matas ciliares merecem uma atenção especial por toda a população, uma vez que a manutenção dessas matas está diretamente atrelada ao bem-estar da sociedade. Por isso, devemos exigir que os representantes dos órgãos responsáveis ajam para proteger as matas ciliares e responsabilizar os culpados pelo desmatamento ilegal. No entanto, a conscientização deve vir primeiramente de todos nós, com medidas simples e possíveis. Como exemplo, fazer o descarte correto do lixo, realizar a utilização correta e consciente da água. Por fim, só conseguimos um ambiente equilibrado e sustentável, se todas as esferas da sociedade agirem de forma adequada e respeitosa.
quinta-feira, 25 de julho de 2024
Tratamento com fumaça pode favorecer a germinação de sementes do Cerrado
José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – As plantas do Cerrado evoluíram, ao longo de milhares de anos, na presença de queimadas espontâneas. O efeito da fumaça na germinação de sementes de 44 espécies vegetais típicas desse bioma foi tema de pesquisa publicada por cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) no periódico Plant Ecology. Segundo os autores, os resultados poderão ser utilizados para otimizar a restauração de áreas degradadas.
O estudo foi conduzido pelo doutorando Gabriel Schmidt Teixeira Motta, sob a orientação da professora da Unesp Rosana Marta Kolb.
“Pesquisas anteriores investigaram a ação da fumaça sobre algumas poucas espécies, mas o levantamento feito neste estudo é o mais completo já realizado no Cerrado. O Gabriel avaliou o efeito da fumaça na germinação de 44 espécies do estrato herbáceo-arbustivo do bioma, envolvendo gramíneas, outras ervas [não gramíneas], subarbustos e arbustos”, diz Kolb.
A pesquisadora informa que a fumaça contém centenas de substâncias, que podem favorecer ou prejudicar a germinação de sementes, dependendo das espécies. As mais conhecidas delas são as carriquinas, reguladores da germinação e do crescimento encontrados na queima de material vegetal. As carriquinas interagem com os hormônios das plantas, promovendo a germinação de certas sementes e inibindo o desenvolvimento de outras.
“Como a pesquisa feita diretamente com fumaça gasosa envolve variáveis difíceis de replicar, optamos por utilizar ‘água de fumaça’ disponibilizada comercialmente. Ela produz um efeito equivalente ao da chuva depois da queimada. E sua ação pode ser facilmente reproduzida por outros pesquisadores”, explica Kolb. E conta que, em seu laboratório, foram empregadas duas concentrações de “água de fumaça”: 2,5% e 5,0%.
Aplicações práticas
O estudo em pauta enfocou o efeito individual das duas concentrações de água de fumaça na germinação das sementes das 44 espécies, sem se preocupar com a definição de estratégias de manejo. Mas as aplicações práticas são óbvias: sementes que respondem bem poderão ser semeadas em áreas que sofreram a ação do fogo ou ainda previamente tratadas com “água de fumaça”, na concentração adequada, antes da semeadura em campo, em áreas degradadas por pecuária e outros usos do solo. “Verificamos que, não apenas as plantas típicas de savanas, mas até mesmo algumas espécies de campos úmidos, que não evoluíram na presença de fogo intenso e frequente, responderam bem ao tratamento com fumaça”, destaca Kolb.
Das 44 espécies estudadas, 14 delas (32% do total) mostraram aumento na germinação em resposta à fumaça, com variações dependendo da concentração. Por outro lado, quatro espécies (9% do total) exibiram uma redução significativa na germinação, particularmente na concentração mais alta, de 5%. As gramíneas, em especial, germinaram mais rapidamente em resposta à fumaça, com destaque para Ctenium polystachyum e Saccharum villosum, que apresentaram redução substancial no tempo médio de germinação após tratamento com “água de fumaça”.
“Os resultados indicam que a fumaça pode atuar como um estímulo importante para a germinação em algumas espécies do Cerrado, oferecendo uma vantagem competitiva no ambiente pós-fogo. A pesquisa sugere que as respostas à fumaça são altamente específicas para cada espécie e variam de acordo com a forma de crescimento e o tipo de comunidade vegetal”, resume Kolb.
Além de Motta e Kolb, Natashi Pilon e Alessandra Fidelis participaram do estudo. A pesquisa recebeu apoio da FAPESP por meio do projeto “Atributos adaptativos ao fogo de sementes de espécies do Cerrado”, coordenado por Fidelis, e da bolsa de pós-doutorado concedida a Pilon.
O artigo Smoke Effects on the Germination of Cerrado Species pode ser acessado em: https://link.springer.com/article/10.1007/s11258-024-01427-4.