segunda-feira, 23 de março de 2026

Pesquisa mostra que áreas úmidas do Cerrado armazenam mais carbono do que florestas na Amazônia

 

Luciana Constantino  |  Agência FAPESP – Os campos úmidos e as veredas do Cerrado brasileiro são capazes de armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, o que equivale a cerca de seis vezes o estoque de biomassa de florestas típicas na Amazônia. Datações indicam que, em média, esse carbono está no local há 11 mil anos, sendo, em alguns casos, de até 20 mil anos atrás, resultado de um processo lento de acúmulo favorecido pela falta de oxigênio nos solos saturados de água.

Os achados são de um estudo publicado na quinta-feira (12/03) na revista científica New Phytologist e liderado por pesquisadores do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp).

Como essas áreas úmidas dependentes de lençol freático ainda são pouco estudadas, os cientistas fizeram um primeiro mapeamento usando dados de sensoriamento remoto combinados com aprendizado de máquina, apontando que elas podem cobrir 167 mil quilômetros quadrados (km²) no Cerrado. Representam uma região, pelo menos, seis vezes maior do que se pensava antes, equivalendo a cerca de 8% do bioma e 2% do território brasileiro.

Segundo maior bioma da América do Sul, o Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo e conhecido como “berço de águas” por contribuir com dois terços do abastecimento de grandes bacias hidrográficas, especialmente das regiões Sul e Sudeste do país. Também abriga os chamados olhos d’água – afloramentos naturais do lençol freático –, incluindo os de caráter difuso, protegidos pelo Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), que os classifica como Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Imortalizadas na obra Grande Sertão: Veredas – que completa 70 anos em 2026 – do escritor João Guimarães Rosa (1908-1967), as veredas são um tipo de turfeira, um ecossistema de áreas alagadiças e pantanosas. Além do carbono estocado, são fontes significativas de metano (CH), especialmente em áreas permanentemente inundadas, onde as emissões são aumentadas em decorrência de temperaturas mais elevadas.

Apesar de pouco visíveis e muitas vezes ignoradas, essas formações desempenham funções ecológicas estratégicas, principalmente por serem fonte para rios e bacias hidrográficas. Porém, segundo os pesquisadores, esses ecossistemas estão altamente vulneráveis a alterações no regime hídrico provocadas pela expansão agrícola, desmatamento, drenagem de áreas úmidas, construção de pequenas barragens e uso intensivo de água para irrigação.

Mesmo quando preservadas em fragmentos, mudanças no entorno podem reduzir o nível do lençol freático e transformar esses solos em fontes de emissão de carbono.

“Se a gente corta uma árvore que está há 300 anos na floresta, perdemos um grande estoque de carbono e funções ecossistêmicas importantes que são difíceis de serem recuperadas em sua totalidade. Mas com o processo de restauração florestal, é possível chegar perto disso em 30 ou 40 anos. Ou seja, você consegue plantar árvores e durante sua vida acompanhar esse processo. Agora, o carbono do solo de uma área úmida do Cerrado não vamos recuperar no nosso tempo de vida, pois foi estocado ao longo de dezenas de milhares de anos”, exemplifica à Agência FAPESP a bióloga Larissa da Silveira Verona, primeira autora do artigo.

O trabalho é, em parte, derivado do seu mestrado sob a supervisão do professor Rafael Silva Oliveira e foi premiado em 2024 como melhor dissertação do Programa de Pós-Graduação em Biologia Vegetal do IB-Unicamp.

Trabalhando atualmente no Cary Institute of Ecosystem Studies (Estados Unidos) com a pesquisadora Amy Zanne, outra autora do artigo, Verona recebeu durante o mestrado bolsa da FAPESP, que também apoiou o estudo por meio de Auxílio à Pesquisa concedido a Oliveira.

“O Cerrado foi escolhido como a principal fronteira agrícola do Brasil, voltada à produção de commodities em larga escala. Situado entre duas formações florestais, a Amazônia e a Mata Atlântica, o bioma sofre intensa pressão de conversão e, ao contrário dessas florestas, não é reconhecido como patrimônio nacional na Constituição e tem previsão legal de apenas 20% para áreas de preservação. Infelizmente, temos a percepção de que manter APPs ao lado dos rios é suficiente para conservar as funções ecossistêmicas do bioma. Estamos vendo que não. Para manter os processos hidrológicos do Cerrado, é preciso entender a conectividade da paisagem. Não basta preservar pequenos fragmentos enquanto o restante do território é convertido”, complementa Oliveira, que também assina o artigo.

Mesmo com tendência de queda, os índices de desmatamento do bioma permanecem altos. De agosto de 2025 a janeiro deste ano, as áreas sob alerta de desmatamento no Cerrado totalizaram 1.905 km², ante 2.025 km² no período anterior (queda de 6%), segundo dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Levantamento realizado pelo MapBiomas mostrou que 47% do Cerrado é ocupado por áreas de uso antrópico (dados de 2024), sendo 24% para pastagem e 13% para agricultura, com a grande maioria da área de plantio destinada à soja. Em relação à superfície de água, o documento mostra que 2024 teve a maior área desde 1985, mas com 60% do uso antrópico (boa parte em hidrelétrica).


Imortalizadas no livro Grande Sertão: Veredas – que completa 70 anos em 2026 – de João Guimarães Rosa, as veredas são um tipo de turfeira, um ecossistema de áreas alagadiças e pantanosas (foto: André Dib)

Trabalho de campo

A pesquisa é pioneira no uso de amostras de solo profundo (com profundidade de até quatro metros) para quantificar o carbono nesses ambientes. Foram coletadas amostras de solo de veredas e campos úmidos em sete pontos do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, em 2023.

“Fazer essas coletas foi um processo de desbravar algumas regiões. Havia local onde a vegetação chegava à altura do meu ombro e, como é alagado, muitas vezes os pés afundam. O nosso solo é mais denso do que outros, por isso foi fisicamente extenuante, às vezes com cinco ou seis pessoas ajudando a usar o equipamento, mas é muito gratificante o resultado”, conta Verona.

O grupo usou um instrumento chamado LI-COR Trace Gas Analyzer, conectado a anéis de PVC instalados no solo para medir o dióxido de carbono e o metano.

Para fazer a datação do carbono, os pesquisadores da Unicamp contaram com cientistas do Instituto Max Planck (Alemanha). Especialistas em sensoriamento remoto, Paulo Negri Bernardino, da Unicamp, e Guilherme Gerhardt Mazzochini, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, contribuíram no mapeamento das áreas.

O trabalho indicou ainda, por meio de espectroscopia, uma baixa estabilidade do carbono em comparação com outras turfeiras tropicais. Cerca de 70% das emissões anuais de CO e CH ocorreram durante a estação seca. Como a maior parte da vegetação nessas áreas úmidas é composta por gramíneas que se decompõem mais facilmente, o carbono armazenado pode se transformar em emissões quando os solos secam, o que pode se agravar com as mudanças climáticas e a maior frequência de estações quentes e secas.

No artigo, os pesquisadores fazem um alerta para a necessidade de ampliar a proteção das áreas úmidas e melhorar a conscientização sobre a importância dessas zonas alimentadas por águas subterrâneas. Também destacam a relevância de ampliar o mapeamento e aprofundar os estudos para a compreensão desses ecossistemas.

Nesse sentido, Verona diz que continua a pesquisa em áreas úmidas sazonais para entender a dinâmica de carbono. Já Oliveira está aprofundando a análise do sistema hidrológico para entender melhor como funcionam esses ecossistemas e como restaurá-los.

“Se a gente perde turfeiras ou veredas, demoramos milhares de anos para restabelecer os níveis de carbono estocados, sem contar os prejuízos de outros serviços ecossistêmicos. A preservação é o caminho, mas continuamos tentando compreender melhor os processos”, projeta o professor.

Um outro artigo liderado por Oliveira e publicado no ano passado já destacava que, apesar da importância para a segurança hídrica e de estarem protegidos por lei, os campos úmidos do Cerrado, incluindo os olhos d’água, continuam sistematicamente negligenciados por políticas públicas, consultores ambientais, proprietários rurais e órgãos de fiscalização (leia mais em: agencia.fapesp.br/55287).

O artigo Vast, overlooked peat, and organic soils in Brazil’s Cerrado: carbon storage, dynamics, and stability pode ser lido em: nph.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/nph.71027.
 

Planta aquática reduz antibióticos na água e danos genéticos em peixes

 

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Estudo conduzido por pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP) e publicado no periódico Environmental Sciences Europe identificou resíduos de diferentes classes de antibióticos no rio Piracicaba, um dos principais cursos d’água do interior paulista, e avaliou de forma integrada como essas substâncias se acumulam em peixes e podem ser parcialmente mitigadas por uma planta aquática amplamente disseminada na região, a Salvinia auriculata.

O trabalho, liderado por Patrícia Alexandre Evangelista e apoiado pela FAPESP, combinou monitoramento ambiental, estudos de bioacumulação, análises de danos genéticos em organismos aquáticos e experimentos de fitorremediação. A abordagem integrada permitiu não apenas mapear a contaminação, mas também discutir riscos ecológicos e potenciais estratégias de enfrentamento de um problema associado tanto ao uso humano quanto ao uso veterinário de medicamentos.

As coletas foram realizadas na região da barragem de Santa Maria da Serra, próxima ao reservatório de Barra Bonita, onde se acumulam cargas provenientes de toda a bacia do rio Piracicaba. O local recebe contribuições de esgoto urbano tratado, efluentes domésticos, atividades de aquicultura e de criação de suínos, além do escoamento difuso associado à agricultura.

Foram analisadas amostras de água, sedimento e peixes em dois períodos: o chuvoso e o de estiagem. Ao todo, o monitoramento incluiu 12 antibióticos de classes amplamente utilizadas – tetraciclinas, fluoroquinolonas, sulfonamidas e fenóis. “Os resultados mostraram um padrão claro de sazonalidade. Durante o período chuvoso, a maioria dos antibióticos apresentou concentrações abaixo dos limites de detecção. Já na estação seca, quando o volume de água diminui e os contaminantes se concentram, diferentes compostos foram detectados”, diz Evangelista.

As concentrações encontradas variaram da ordem de nanogramas por litro na água a microgramas por quilo no sedimento. Neste último, por exemplo, foram detectadas fluoroquinolonas, como a enrofloxacina, e sulfonamidas em níveis superiores aos relatados em estudos internacionais comparáveis. O sedimento, rico em matéria orgânica e nutrientes como fósforo, cálcio e magnésio, atua como um reservatório desses compostos, com potencial de remobilização ao longo do tempo.

“Um dos achados mais sensíveis do estudo foi a detecção de cloranfenicol em peixes do tipo lambari (Astyanax sp.) coletados com pescadores ribeirinhos da região de Barra Bonita. O cloranfenicol é um antibiótico cujo uso em animais de produção é proibido no Brasil, justamente por causa dos riscos associados à sua toxicidade”, afirma a pesquisadora.

A substância foi encontrada no peixe apenas no período de estiagem, com concentrações da ordem de dezenas de microgramas por quilo. O resultado chama atenção por envolver uma espécie amplamente comercializada e consumida localmente, indicando uma possível via de exposição humana indireta por meio da alimentação.

Segundo Evangelista, a escolha do cloranfenicol e da enrofloxacina como foco dos experimentos laboratoriais se deveu à relevância ambiental e sanitária de ambos. “A enrofloxacina é amplamente usada na criação animal, inclusive na aquicultura, e também na medicina humana. Já o cloranfenicol, embora proibido para animais de produção, ainda é utilizado em humanos e funciona como um marcador histórico de contaminação persistente”, informa.

Fitorremediação

Além de mapear a contaminação, o estudo investigou se a Salvinia auriculata (popularmente como mururé-carrapatinho, orelha-de-onça e salvínia), uma macrófita flutuante frequentemente considerada praga em corpos d’água, poderia atuar como aliada na remoção de antibióticos do ambiente.

Em experimentos de laboratório, a planta foi exposta a concentrações ambientais e a concentrações cem vezes maiores de enrofloxacina e cloranfenicol, utilizando compostos radiomarcados com carbono-14. O uso de moléculas radiomarcadas permitiu acompanhar com precisão o destino dos antibióticos na água, na planta e nos peixes.

“Os resultados mostraram uma elevada eficiência da Salvinia na remoção da enrofloxacina: em tratamentos com maior biomassa vegetal, mais de 95% do antibiótico foi retirado da água em poucos dias. A meia-vida do composto caiu para cerca de dois a três dias. No caso do cloranfenicol, a remoção foi mais lenta e parcial. A planta foi capaz de retirar entre 30% e 45% do antibiótico da água, com meias-vidas entre 16 e 20 dias, indicando maior persistência do composto no ambiente”, relata a pesquisadora.

As imagens de autorradiografia revelaram que, em ambos os casos, os antibióticos se concentraram principalmente nas raízes da planta, sugerindo que a rizofiltração e a absorção radicular desempenham papel central no processo.

Bioacumulação

Um dos aspectos mais complexos do estudo diz respeito à bioacumulação nos peixes. Experimentos controlados mostraram que a simples redução da concentração do antibiótico na água não implica, necessariamente, em menor absorção pelo organismo.

Para a enrofloxacina, a maior parte do composto permaneceu dissolvida na água e foi eliminada relativamente rápido pelo lambari, com meia-vida de cerca de 21 dias. O fator de bioconcentração foi baixo, indicando menor tendência à acumulação nos tecidos. Já o cloranfenicol apresentou comportamento distinto. O antibiótico mostrou maior persistência no organismo, com meia-vida superior a 90 dias e fator de bioconcentração elevado, refletindo maior retenção nos tecidos dos peixes.

A presença da Salvinia auriculata alterou essa dinâmica. Embora a planta tenha reduzido significativamente a quantidade de antibiótico na água, em alguns casos houve aumento da velocidade de absorção pelo peixe. Uma das hipóteses é que a planta possa transformar parcialmente o composto original ou modificar sua forma química, tornando-o mais biodisponível, mesmo em concentrações totais menores.

“Isso mostra que usar plantas como ‘esponjas’ de contaminantes não é algo trivial. A presença da macrófita muda todo o sistema, inclusive a forma como o organismo entra em contato com o contaminante”, pontua Evangelista.

Apesar dessas complexidades, um resultado relevante emergiu das análises genotóxicas. O cloranfenicol induziu aumento significativo de danos ao DNA dos peixes, medidos pela frequência de micronúcleos e de anomalias nucleares em células sanguíneas. Quando a Salvinia auriculata estava presente no sistema, esses danos foram claramente reduzidos, aproximando-se dos níveis observados nos grupos-controle. Para a enrofloxacina, por outro lado, a presença da planta não levou a uma atenuação significativa dos efeitos genotóxicos.

“A interpretação que propomos é que, no caso do cloranfenicol, a planta possa gerar subprodutos menos genotóxicos ou liberar compostos antioxidantes na rizosfera, reduzindo o estresse oxidativo nos peixes. Já a enrofloxacina, quimicamente mais estável, pode originar metabólitos persistentes e potencialmente tóxicos, cuja ação não é neutralizada pela macrófita”, comenta a pesquisadora.

Evangelista ressalta que a Salvinia auriculata não deve ser vista como uma solução simples ou definitiva para a poluição por antibióticos. O estudo evidencia tanto seu potencial quanto seus limites. Além das incertezas sobre a formação de subprodutos, há o desafio do manejo da biomassa contaminada. Se não for removida e tratada adequadamente, a planta pode se tornar uma fonte secundária de poluição, reintroduzindo os antibióticos no ambiente.

Ainda assim, os resultados indicam que macrófitas aquáticas podem integrar estratégias de mitigação de baixo custo e baseadas na natureza, especialmente em sistemas onde tecnologias avançadas de tratamento – como ozonização ou processos oxidativos – são economicamente inviáveis.

“O estudo mostra que o problema é real, mensurável e complexo. E que qualquer estratégia de enfrentamento precisa considerar não só a remoção do contaminante, mas também seus efeitos biológicos e ecológicos”, conclui a pesquisadora.

“A detecção de resíduos de antibióticos em água, sedimentos e peixes do rio Piracicaba mostra quão danosas podem ser as atividades humanas. A resistência de microrganismos a antibióticos pode provocar o aparecimento de superbactérias no ambiente. A pesquisa trouxe um resultado muito positivo, com soluções ambientais de baixo custo, possibilitou entender melhor o funcionamento integrado dos ecossistemas aquáticos e aproveitar técnicas naturais eficazes para a mitigação de impactos”, acrescenta Valdemar Luiz Tornisielo, orientador da pesquisa de Evangelista que também assina o artigo.

As moléculas radiomarcadas no estudo foram concedidas pela International Atomic Energy Agency (IAEA).

O artigo Integrated approach for assessing and mitigating antibiotic contamination in natural waters using bioaccumulation and phytoremediation pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1186/s12302-025-01275-7.