segunda-feira, 23 de março de 2026

Pesquisa mostra que áreas úmidas do Cerrado armazenam mais carbono do que florestas na Amazônia

 

Luciana Constantino  |  Agência FAPESP – Os campos úmidos e as veredas do Cerrado brasileiro são capazes de armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, o que equivale a cerca de seis vezes o estoque de biomassa de florestas típicas na Amazônia. Datações indicam que, em média, esse carbono está no local há 11 mil anos, sendo, em alguns casos, de até 20 mil anos atrás, resultado de um processo lento de acúmulo favorecido pela falta de oxigênio nos solos saturados de água.

Os achados são de um estudo publicado na quinta-feira (12/03) na revista científica New Phytologist e liderado por pesquisadores do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp).

Como essas áreas úmidas dependentes de lençol freático ainda são pouco estudadas, os cientistas fizeram um primeiro mapeamento usando dados de sensoriamento remoto combinados com aprendizado de máquina, apontando que elas podem cobrir 167 mil quilômetros quadrados (km²) no Cerrado. Representam uma região, pelo menos, seis vezes maior do que se pensava antes, equivalendo a cerca de 8% do bioma e 2% do território brasileiro.

Segundo maior bioma da América do Sul, o Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo e conhecido como “berço de águas” por contribuir com dois terços do abastecimento de grandes bacias hidrográficas, especialmente das regiões Sul e Sudeste do país. Também abriga os chamados olhos d’água – afloramentos naturais do lençol freático –, incluindo os de caráter difuso, protegidos pelo Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), que os classifica como Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Imortalizadas na obra Grande Sertão: Veredas – que completa 70 anos em 2026 – do escritor João Guimarães Rosa (1908-1967), as veredas são um tipo de turfeira, um ecossistema de áreas alagadiças e pantanosas. Além do carbono estocado, são fontes significativas de metano (CH), especialmente em áreas permanentemente inundadas, onde as emissões são aumentadas em decorrência de temperaturas mais elevadas.

Apesar de pouco visíveis e muitas vezes ignoradas, essas formações desempenham funções ecológicas estratégicas, principalmente por serem fonte para rios e bacias hidrográficas. Porém, segundo os pesquisadores, esses ecossistemas estão altamente vulneráveis a alterações no regime hídrico provocadas pela expansão agrícola, desmatamento, drenagem de áreas úmidas, construção de pequenas barragens e uso intensivo de água para irrigação.

Mesmo quando preservadas em fragmentos, mudanças no entorno podem reduzir o nível do lençol freático e transformar esses solos em fontes de emissão de carbono.

“Se a gente corta uma árvore que está há 300 anos na floresta, perdemos um grande estoque de carbono e funções ecossistêmicas importantes que são difíceis de serem recuperadas em sua totalidade. Mas com o processo de restauração florestal, é possível chegar perto disso em 30 ou 40 anos. Ou seja, você consegue plantar árvores e durante sua vida acompanhar esse processo. Agora, o carbono do solo de uma área úmida do Cerrado não vamos recuperar no nosso tempo de vida, pois foi estocado ao longo de dezenas de milhares de anos”, exemplifica à Agência FAPESP a bióloga Larissa da Silveira Verona, primeira autora do artigo.

O trabalho é, em parte, derivado do seu mestrado sob a supervisão do professor Rafael Silva Oliveira e foi premiado em 2024 como melhor dissertação do Programa de Pós-Graduação em Biologia Vegetal do IB-Unicamp.

Trabalhando atualmente no Cary Institute of Ecosystem Studies (Estados Unidos) com a pesquisadora Amy Zanne, outra autora do artigo, Verona recebeu durante o mestrado bolsa da FAPESP, que também apoiou o estudo por meio de Auxílio à Pesquisa concedido a Oliveira.

“O Cerrado foi escolhido como a principal fronteira agrícola do Brasil, voltada à produção de commodities em larga escala. Situado entre duas formações florestais, a Amazônia e a Mata Atlântica, o bioma sofre intensa pressão de conversão e, ao contrário dessas florestas, não é reconhecido como patrimônio nacional na Constituição e tem previsão legal de apenas 20% para áreas de preservação. Infelizmente, temos a percepção de que manter APPs ao lado dos rios é suficiente para conservar as funções ecossistêmicas do bioma. Estamos vendo que não. Para manter os processos hidrológicos do Cerrado, é preciso entender a conectividade da paisagem. Não basta preservar pequenos fragmentos enquanto o restante do território é convertido”, complementa Oliveira, que também assina o artigo.

Mesmo com tendência de queda, os índices de desmatamento do bioma permanecem altos. De agosto de 2025 a janeiro deste ano, as áreas sob alerta de desmatamento no Cerrado totalizaram 1.905 km², ante 2.025 km² no período anterior (queda de 6%), segundo dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Levantamento realizado pelo MapBiomas mostrou que 47% do Cerrado é ocupado por áreas de uso antrópico (dados de 2024), sendo 24% para pastagem e 13% para agricultura, com a grande maioria da área de plantio destinada à soja. Em relação à superfície de água, o documento mostra que 2024 teve a maior área desde 1985, mas com 60% do uso antrópico (boa parte em hidrelétrica).


Imortalizadas no livro Grande Sertão: Veredas – que completa 70 anos em 2026 – de João Guimarães Rosa, as veredas são um tipo de turfeira, um ecossistema de áreas alagadiças e pantanosas (foto: André Dib)

Trabalho de campo

A pesquisa é pioneira no uso de amostras de solo profundo (com profundidade de até quatro metros) para quantificar o carbono nesses ambientes. Foram coletadas amostras de solo de veredas e campos úmidos em sete pontos do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, em 2023.

“Fazer essas coletas foi um processo de desbravar algumas regiões. Havia local onde a vegetação chegava à altura do meu ombro e, como é alagado, muitas vezes os pés afundam. O nosso solo é mais denso do que outros, por isso foi fisicamente extenuante, às vezes com cinco ou seis pessoas ajudando a usar o equipamento, mas é muito gratificante o resultado”, conta Verona.

O grupo usou um instrumento chamado LI-COR Trace Gas Analyzer, conectado a anéis de PVC instalados no solo para medir o dióxido de carbono e o metano.

Para fazer a datação do carbono, os pesquisadores da Unicamp contaram com cientistas do Instituto Max Planck (Alemanha). Especialistas em sensoriamento remoto, Paulo Negri Bernardino, da Unicamp, e Guilherme Gerhardt Mazzochini, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, contribuíram no mapeamento das áreas.

O trabalho indicou ainda, por meio de espectroscopia, uma baixa estabilidade do carbono em comparação com outras turfeiras tropicais. Cerca de 70% das emissões anuais de CO e CH ocorreram durante a estação seca. Como a maior parte da vegetação nessas áreas úmidas é composta por gramíneas que se decompõem mais facilmente, o carbono armazenado pode se transformar em emissões quando os solos secam, o que pode se agravar com as mudanças climáticas e a maior frequência de estações quentes e secas.

No artigo, os pesquisadores fazem um alerta para a necessidade de ampliar a proteção das áreas úmidas e melhorar a conscientização sobre a importância dessas zonas alimentadas por águas subterrâneas. Também destacam a relevância de ampliar o mapeamento e aprofundar os estudos para a compreensão desses ecossistemas.

Nesse sentido, Verona diz que continua a pesquisa em áreas úmidas sazonais para entender a dinâmica de carbono. Já Oliveira está aprofundando a análise do sistema hidrológico para entender melhor como funcionam esses ecossistemas e como restaurá-los.

“Se a gente perde turfeiras ou veredas, demoramos milhares de anos para restabelecer os níveis de carbono estocados, sem contar os prejuízos de outros serviços ecossistêmicos. A preservação é o caminho, mas continuamos tentando compreender melhor os processos”, projeta o professor.

Um outro artigo liderado por Oliveira e publicado no ano passado já destacava que, apesar da importância para a segurança hídrica e de estarem protegidos por lei, os campos úmidos do Cerrado, incluindo os olhos d’água, continuam sistematicamente negligenciados por políticas públicas, consultores ambientais, proprietários rurais e órgãos de fiscalização (leia mais em: agencia.fapesp.br/55287).

O artigo Vast, overlooked peat, and organic soils in Brazil’s Cerrado: carbon storage, dynamics, and stability pode ser lido em: nph.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/nph.71027.
 

Planta aquática reduz antibióticos na água e danos genéticos em peixes

 

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Estudo conduzido por pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP) e publicado no periódico Environmental Sciences Europe identificou resíduos de diferentes classes de antibióticos no rio Piracicaba, um dos principais cursos d’água do interior paulista, e avaliou de forma integrada como essas substâncias se acumulam em peixes e podem ser parcialmente mitigadas por uma planta aquática amplamente disseminada na região, a Salvinia auriculata.

O trabalho, liderado por Patrícia Alexandre Evangelista e apoiado pela FAPESP, combinou monitoramento ambiental, estudos de bioacumulação, análises de danos genéticos em organismos aquáticos e experimentos de fitorremediação. A abordagem integrada permitiu não apenas mapear a contaminação, mas também discutir riscos ecológicos e potenciais estratégias de enfrentamento de um problema associado tanto ao uso humano quanto ao uso veterinário de medicamentos.

As coletas foram realizadas na região da barragem de Santa Maria da Serra, próxima ao reservatório de Barra Bonita, onde se acumulam cargas provenientes de toda a bacia do rio Piracicaba. O local recebe contribuições de esgoto urbano tratado, efluentes domésticos, atividades de aquicultura e de criação de suínos, além do escoamento difuso associado à agricultura.

Foram analisadas amostras de água, sedimento e peixes em dois períodos: o chuvoso e o de estiagem. Ao todo, o monitoramento incluiu 12 antibióticos de classes amplamente utilizadas – tetraciclinas, fluoroquinolonas, sulfonamidas e fenóis. “Os resultados mostraram um padrão claro de sazonalidade. Durante o período chuvoso, a maioria dos antibióticos apresentou concentrações abaixo dos limites de detecção. Já na estação seca, quando o volume de água diminui e os contaminantes se concentram, diferentes compostos foram detectados”, diz Evangelista.

As concentrações encontradas variaram da ordem de nanogramas por litro na água a microgramas por quilo no sedimento. Neste último, por exemplo, foram detectadas fluoroquinolonas, como a enrofloxacina, e sulfonamidas em níveis superiores aos relatados em estudos internacionais comparáveis. O sedimento, rico em matéria orgânica e nutrientes como fósforo, cálcio e magnésio, atua como um reservatório desses compostos, com potencial de remobilização ao longo do tempo.

“Um dos achados mais sensíveis do estudo foi a detecção de cloranfenicol em peixes do tipo lambari (Astyanax sp.) coletados com pescadores ribeirinhos da região de Barra Bonita. O cloranfenicol é um antibiótico cujo uso em animais de produção é proibido no Brasil, justamente por causa dos riscos associados à sua toxicidade”, afirma a pesquisadora.

A substância foi encontrada no peixe apenas no período de estiagem, com concentrações da ordem de dezenas de microgramas por quilo. O resultado chama atenção por envolver uma espécie amplamente comercializada e consumida localmente, indicando uma possível via de exposição humana indireta por meio da alimentação.

Segundo Evangelista, a escolha do cloranfenicol e da enrofloxacina como foco dos experimentos laboratoriais se deveu à relevância ambiental e sanitária de ambos. “A enrofloxacina é amplamente usada na criação animal, inclusive na aquicultura, e também na medicina humana. Já o cloranfenicol, embora proibido para animais de produção, ainda é utilizado em humanos e funciona como um marcador histórico de contaminação persistente”, informa.

Fitorremediação

Além de mapear a contaminação, o estudo investigou se a Salvinia auriculata (popularmente como mururé-carrapatinho, orelha-de-onça e salvínia), uma macrófita flutuante frequentemente considerada praga em corpos d’água, poderia atuar como aliada na remoção de antibióticos do ambiente.

Em experimentos de laboratório, a planta foi exposta a concentrações ambientais e a concentrações cem vezes maiores de enrofloxacina e cloranfenicol, utilizando compostos radiomarcados com carbono-14. O uso de moléculas radiomarcadas permitiu acompanhar com precisão o destino dos antibióticos na água, na planta e nos peixes.

“Os resultados mostraram uma elevada eficiência da Salvinia na remoção da enrofloxacina: em tratamentos com maior biomassa vegetal, mais de 95% do antibiótico foi retirado da água em poucos dias. A meia-vida do composto caiu para cerca de dois a três dias. No caso do cloranfenicol, a remoção foi mais lenta e parcial. A planta foi capaz de retirar entre 30% e 45% do antibiótico da água, com meias-vidas entre 16 e 20 dias, indicando maior persistência do composto no ambiente”, relata a pesquisadora.

As imagens de autorradiografia revelaram que, em ambos os casos, os antibióticos se concentraram principalmente nas raízes da planta, sugerindo que a rizofiltração e a absorção radicular desempenham papel central no processo.

Bioacumulação

Um dos aspectos mais complexos do estudo diz respeito à bioacumulação nos peixes. Experimentos controlados mostraram que a simples redução da concentração do antibiótico na água não implica, necessariamente, em menor absorção pelo organismo.

Para a enrofloxacina, a maior parte do composto permaneceu dissolvida na água e foi eliminada relativamente rápido pelo lambari, com meia-vida de cerca de 21 dias. O fator de bioconcentração foi baixo, indicando menor tendência à acumulação nos tecidos. Já o cloranfenicol apresentou comportamento distinto. O antibiótico mostrou maior persistência no organismo, com meia-vida superior a 90 dias e fator de bioconcentração elevado, refletindo maior retenção nos tecidos dos peixes.

A presença da Salvinia auriculata alterou essa dinâmica. Embora a planta tenha reduzido significativamente a quantidade de antibiótico na água, em alguns casos houve aumento da velocidade de absorção pelo peixe. Uma das hipóteses é que a planta possa transformar parcialmente o composto original ou modificar sua forma química, tornando-o mais biodisponível, mesmo em concentrações totais menores.

“Isso mostra que usar plantas como ‘esponjas’ de contaminantes não é algo trivial. A presença da macrófita muda todo o sistema, inclusive a forma como o organismo entra em contato com o contaminante”, pontua Evangelista.

Apesar dessas complexidades, um resultado relevante emergiu das análises genotóxicas. O cloranfenicol induziu aumento significativo de danos ao DNA dos peixes, medidos pela frequência de micronúcleos e de anomalias nucleares em células sanguíneas. Quando a Salvinia auriculata estava presente no sistema, esses danos foram claramente reduzidos, aproximando-se dos níveis observados nos grupos-controle. Para a enrofloxacina, por outro lado, a presença da planta não levou a uma atenuação significativa dos efeitos genotóxicos.

“A interpretação que propomos é que, no caso do cloranfenicol, a planta possa gerar subprodutos menos genotóxicos ou liberar compostos antioxidantes na rizosfera, reduzindo o estresse oxidativo nos peixes. Já a enrofloxacina, quimicamente mais estável, pode originar metabólitos persistentes e potencialmente tóxicos, cuja ação não é neutralizada pela macrófita”, comenta a pesquisadora.

Evangelista ressalta que a Salvinia auriculata não deve ser vista como uma solução simples ou definitiva para a poluição por antibióticos. O estudo evidencia tanto seu potencial quanto seus limites. Além das incertezas sobre a formação de subprodutos, há o desafio do manejo da biomassa contaminada. Se não for removida e tratada adequadamente, a planta pode se tornar uma fonte secundária de poluição, reintroduzindo os antibióticos no ambiente.

Ainda assim, os resultados indicam que macrófitas aquáticas podem integrar estratégias de mitigação de baixo custo e baseadas na natureza, especialmente em sistemas onde tecnologias avançadas de tratamento – como ozonização ou processos oxidativos – são economicamente inviáveis.

“O estudo mostra que o problema é real, mensurável e complexo. E que qualquer estratégia de enfrentamento precisa considerar não só a remoção do contaminante, mas também seus efeitos biológicos e ecológicos”, conclui a pesquisadora.

“A detecção de resíduos de antibióticos em água, sedimentos e peixes do rio Piracicaba mostra quão danosas podem ser as atividades humanas. A resistência de microrganismos a antibióticos pode provocar o aparecimento de superbactérias no ambiente. A pesquisa trouxe um resultado muito positivo, com soluções ambientais de baixo custo, possibilitou entender melhor o funcionamento integrado dos ecossistemas aquáticos e aproveitar técnicas naturais eficazes para a mitigação de impactos”, acrescenta Valdemar Luiz Tornisielo, orientador da pesquisa de Evangelista que também assina o artigo.

As moléculas radiomarcadas no estudo foram concedidas pela International Atomic Energy Agency (IAEA).

O artigo Integrated approach for assessing and mitigating antibiotic contamination in natural waters using bioaccumulation and phytoremediation pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1186/s12302-025-01275-7.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Palmeiras são ‘caixas d’água’ da Amazônia


Palmeira patauá (Oenocarpus bataua) em um baixio na Amazônia Central: espécie é a próxima em que pesquisadores vão instalar sensores para estimar armazenamento de água (foto: Thaise Emilio/IB-Unesp) 

Família de plantas pode armazenar duas vezes mais recurso hídrico do que árvores como ipê, mogno ou eucalipto, indica estudo feito na Unesp; resultados preliminares foram apresentados durante o Fórum Brasil-França 2025 “Florestas, Biodiversidade e Sociedades Humanas”

COP30

Elton Alisson | Agência FAPESP – Uma das famílias de plantas mais abundantes na Amazônia, as palmeiras (Arecaceae) têm capacidade de armazenar duas vezes mais água do que as árvores dicotiledôneas – grupo de plantas como o ipê, o mogno e o eucalipto, com flores cujas sementes contêm dois cotilédones, que são as primeiras “folhas” do embrião e servem como fonte de alimento. A existência delas e de outras espécies de plantas associadas a climas úmidos, contudo, está ameaçada devido às mudanças que têm ocorrido no ciclo hidrológico da floresta amazônica.

As constatações têm sido feitas por meio de estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro, no âmbito do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças Climáticas (CBioClima) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP.

Alguns resultados preliminares dos trabalhos em andamento foram apresentados em palestra durante o Fórum Brasil-França “Florestas, Biodiversidade e Sociedades Humanas”, que aconteceu entre os dias 1º e 2 de outubro, no auditório da Fundação.

Organizado pelo Museu Nacional de História Natural (MNHN) da França, em Paris, pela Universidade de São Paulo (USP) e pela FAPESP, o objetivo do evento foi discutir a biodiversidade florestal, os ecossistemas e suas relações com as sociedades humanas, do passado e do presente.

“As palmeiras são grandes reservatórios ou caixas d’água da floresta”, disse Thaise Emilio, professora da Unesp, coordenadora do projeto e pesquisadora associada ao CBioClima.

A despeito de ser apenas uma entre 171 famílias de plantas arborescentes na Amazônia, diz a cientista, as palmeiras são extremamente dominantes na floresta, tanto no dossel como no sub-bosque.

Uma das hipóteses para explicar por que dominam a paisagem da floresta é que podem ter sido domesticadas pelas primeiras populações humanas que ocuparam e manejaram a Amazônia há milhões de anos.

“Há dúvidas, porém, se foram os humanos que enriqueceram a Amazônia com palmeiras ou se eles decidiram viver na floresta justamente por possuírem essas plantas tão abundantes e úteis, que têm grande importância econômica”, ponderou.

Aproximadamente 75% da produção brasileira de produtos florestais não madeireiros hoje é proveniente de palmeiras, sendo 50% só do açaí (Euterpe oleracea), sublinhou a pesquisadora.


Thaise Emílio, professora da Unesp, coordenadora do projeto e pesquisadora associada ao CBioClima: apesar de ser apenas uma entre 171 famílias de plantas arborescentes na Amazônia, as palmeiras são extremamente dominantes na floresta, tanto no dossel como no sub-bosque (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Resistência à seca

Por muito tempo se pensou que as palmeiras fossem extremamente vulneráveis à seca em razão de sua arquitetura hidráulica. A fim de avançar no conhecimento sobre essa questão, a pesquisadora iniciou em 2017 uma colaboração com colegas do Soleil Síncrotron, de Paris, e da Universidade de Bordeaux, em que analisaram a resistência do xilema (tecido vascular responsável por transportar água e sais minerais das raízes para o resto da planta, especialmente para as folhas) de palmeiras à embolia induzida pela seca.

Esse quadro é caracterizado pela formação de bolhas de ar dentro dos vasos do xilema, interrompendo a coluna de água e o transporte do recurso hídrico e de nutrientes do solo para as folhas. Isso acontece quando o estresse hídrico (a falta de água) cria uma pressão negativa tão grande que a água líquida vira gás, prejudicando a função dos vasos e podendo levar à morte da planta.

Por meio de diferentes técnicas, os pesquisadores quantificaram a resistência à seca de seis espécies de palmeiras pertencentes às duas subfamílias mais amplamente cultivadas: a Arecoideae e a Coryphoideae.

As observações foram conduzidas em uma das linhas de feixe do Soleil Síncrotron – acelerador circular de partículas carregadas (elétrons) que gera uma radiação, chamada de luz síncrotron, que permite investigar a composição e a estrutura da matéria na escala dos átomos e das moléculas.

“Por meio das observações, constatamos que as palmeiras são vulneráveis à seca como qualquer outra angiosperma [plantas complexas que apresentam raiz, caule, folhas, flores, frutos e sementes] ou gimnosperma [plantas terrestres que possuem sementes, mas não produzem frutos]. Mas, diferentemente de outras plantas de regiões temperadas, elas têm mais água dentro dos troncos. Dessa forma, conseguem mobilizar mais água e isso acaba se tornando a estratégia mais importante para minimizar os riscos de embolia”, explicou Emilio.

Mais recentemente, ao monitorar, em parceria com colegas da Universidade de Edimburgo, na Escócia, a quantidade de água armazenada pelas palmeiras, os pesquisadores constataram que, enquanto as árvores dicotiledôneas armazenam, no máximo, 50% de seu volume de água, as palmeiras chegam a reter 70%, e durante as épocas secas reservam ainda mais do que nas estações chuvosas.

“Isso tem enormes impactos na biodiversidade da floresta amazônica, que ainda não são estimados”, disse a pesquisadora.

Ao realizar trabalhos de pesquisa de campo na floresta durante os períodos de seca é comum observar só palmeiras com frutos, contou.

“A gente vê que só elas dão frutos nessas épocas de seca. Isso é muito importante para manter a alimentação dos animais na floresta e dos humanos, que dependem desses recursos. E uma das hipóteses pelas quais elas são capazes de manter esse serviço durante períodos de seca é justamente porque têm esse funcionamento diferente de outras plantas, conseguindo armazenar mais água.”

Esse serviço ecossistêmico prestado pelas palmeiras, contudo, está ameaçado em razão do declínio da abundância de espécies de plantas associadas a climas úmidos, devido à intensificação do ciclo hidrológico, caracterizada por secas e estações chuvosas mais intensas. “Isso terá um impacto muito importante para a dinâmica da floresta”, estimou Emilio.

Em um estudo em andamento, os pesquisadores têm avaliado por meio de modelagem o risco de morte de palmeiras em diferentes ambientes – em regiões com lençóis freáticos mais rasos ou mais profundos – e em anos mais secos ou mais úmidos. Resultados preliminares indicaram que elas morreriam duas vezes mais do que outras árvores.

“A combinação de anos chuvosos e secos está causando uma mudança na dinâmica e nas características de regiões da floresta”, afirmou Emilio.

Parceria Brasil-França

O evento integrou a Temporada França-Brasil 2025, uma programação conjunta de atividades culturais, científicas e acadêmicas promovidas para marcar os 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países.

O encontro reuniu cientistas, artistas, gestores públicos, profissionais de museus, estudantes e representantes da sociedade civil em conferências, mesas-redondas e debates, além de visitas institucionais.

“Esse evento é a segunda parte de um encontro realizado em junho deste ano em Paris, que integrou a programação da FAPESP Week na França. Nossa experiência naquela ocasião foi muito intensa e produtiva em diferentes áreas, incluindo aeronáutica e espacial, medicina, inovação, sustentabilidade, biodiversidade e museologia”, avaliou Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, na abertura do evento (leia mais em: agencia.fapesp.br/54994).

Zago sublinhou que a Amazônia Legal ocupa aproximadamente 4 milhões de quilômetros quadrados (km²) do Brasil, uma área que corresponde a mais ou menos 40% do tamanho da Europa, mas que essa imensa floresta estende-se também ao território francês, da Guiana Francesa.

“Temos, pois, nós, brasileiros e franceses, uma responsabilidade compartilhada sobre essa floresta que é uma das maiores reservas da biodiversidade do planeta. Portanto, seu destino pode determinar, em grande parte, o destino da humanidade”, avaliou.


Da esquerda para a direita, Jônatas Trindade, subsecretário da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo, 
Maria Arminda do Nascimento Arruda, vice-reitora da USP, Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, Alexandra Mias, consulesa-geral da França em São Paulo, Gilles Bloch, presidente do MNHN, e Flávia Teixeira, gerente de Meio Ambiente, Responsabilidade Social Corporativa e Transição Energética da Fundação Engie (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

O presidente do MNHN, Gilles Bloch, afirmou que “os desafios ambientais compartilhados pela França e pelo Brasil são muito sérios e a instituição está fortemente comprometida em trabalhar as questões de forma contundente”.

“Este fórum é bastante ambicioso e reforça a tradição de colaboração que existe entre nós e a USP. Todos os acordos que estamos celebrando nessa visita são uma grande honra para nós e vão facilitar a prática de ações e cooperação em um trabalho que precisa ser realizado em rede”, avaliou.

A vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, anunciou em sua fala um projeto, atualmente em execução, de construção da Praça dos Museus da USP, que reunirá acervos dos museus de Zoologia (MZ-USP) e de Arqueologia e Etnologia (MAE-USP).

“No Brasil, os museus de história natural estão intimamente ligados ao surgimento da pesquisa científica no país. A Universidade de São Paulo tem acervos museológicos ímpares e coleções científicas e culturais entre as maiores do mundo. Temos um compromisso com nossos museus e esses acervos e, por isso, estamos construindo um novo espaço, com um projeto notável do grande arquiteto Paulo Mendes da Rocha [1928-2021]. Esse novo museu será uma referência para toda a cidade, para o país e para o mundo”, avaliou.

Também participaram da abertura do evento Alexandra Mias, consulesa-geral da França em São Paulo; Jônatas Souza da Trindade, subsecretário da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo; Flávia Teixeira, gerente de Meio Ambiente, Responsabilidade Social Corporativa e Transição Energética da Fundação Engie; o diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo (CTA) da FAPESP, Carlos Graeff; e o diretor administrativo da instituição, Fernando Menezes.